sobre mulheres e álcool
No Dia Internacional da Mulher, costumamos falar sobre conquistas, independência e força
feminina. No entanto, existe um tema que ainda permanece cercado por silêncio,
julgamento e pouca visibilidade: o sofrimento feminino relacionado ao uso de álcool.
Nos últimos anos, algumas produções culturais começaram a trazer essa realidade à tona.
O filme (Des)controle, estrelado por Carolina Dieckmann, apresenta uma história que
dialoga com a experiência de muitas mulheres. A personagem é produtiva, mãe,
aparentemente funcional e bem-sucedida. No entanto, por trás de uma rotina organizada,
existe um consumo de álcool que deixou de ser social e passou a funcionar como uma
tentativa de lidar com angústias que não encontram espaço para serem expressas.
Esse retrato revela algo importante: o sofrimento feminino nem sempre é visível.
O estigma em torno do alcoolismo feminino
Quando se fala em alcoolismo, ainda é comum que a imagem associada ao problema seja
masculina. Esse imaginário ajuda a explicar, inclusive, por que há menos estudos sobre
alcoolismo em mulheres e por que o tema ainda é pouco discutido socialmente.
Ao mesmo tempo em que as mulheres conquistaram maior liberdade social, inclusive em
relação ao consumo de álcool, a forma como a sociedade julga esse comportamento não
mudou na mesma velocidade. A embriaguez feminina ainda costuma ser vista com mais
reprovação do que a masculina.
Essa contradição cria um cenário delicado: muitas mulheres convivem com o problema em
silêncio, carregando sentimentos intensos de vergonha, culpa e medo do julgamento.
Vulnerabilidade biológica e emocional ao álcool
De acordo com dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), mulheres apresentam
maior vulnerabilidade biológica aos efeitos do álcool. Isso significa que quantidades
menores da substância podem gerar impactos físicos e psicológicos mais significativos.
Além disso, existem fatores sociais e emocionais que também contribuem para esse
cenário. Para muitas mulheres, o álcool aparece inicialmente como uma tentativa de aliviar
pressões acumuladas: a sobrecarga da dupla jornada, a cobrança por desempenho
profissional, as responsabilidades familiares, a culpa constante ou até a solidão dentro de
relações afetivas.
Enquanto os homens muitas vezes encontram permissão social para externalizar sofrimento
por meio da agressividade ou da impulsividade, as mulheres tendem a internalizar emoçõescomo tristeza, frustração ou exaustão. Nesse contexto, o álcool pode surgir como uma
forma de anestesia emocional.
Quando o controle começa a se perder
Um aspecto recorrente no alcoolismo feminino é que a percepção da perda de controle
costuma vir acompanhada de vergonha antes mesmo de preocupação com a própria saúde.
Socialmente, muitas mulheres ocupam o lugar de quem cuida, organiza e sustenta a vida
dos outros. São frequentemente vistas como o centro da rede de apoio da família. Diante
disso, reconhecer a própria vulnerabilidade pode ser extremamente difícil.
O medo de decepcionar familiares, de perder a confiança dos filhos ou de ser julgada
socialmente faz com que muitas mulheres escondam o sofrimento por muito tempo.
Em muitos casos, o consumo de álcool não começa como um problema. Ele começa como
alívio. Como uma tentativa de lidar com dores que já existiam antes: histórias de sobrecarga
emocional, abandono, violência, dependência afetiva ou solidão.
O ciclo silencioso do sofrimento
No filme (Des)controle, essa dinâmica aparece de forma muito clara. Em uma cena
marcante, a personagem está em seu escritório, cercada por livros e símbolos de realização
profissional. No entanto, ao invés de conseguir se concentrar, ela se perde nas redes
sociais e adia tarefas importantes.
Pouco a pouco, qualquer situação passa a servir de justificativa para beber: uma conquista,
uma frustração, um momento de euforia ou de tristeza. O álcool, assim como o consumo
excessivo de internet, passa a funcionar como uma forma de escapar daquilo que precisa
ser enfrentado.
As responsabilidades ficam para depois, a culpa aumenta e se instala um ciclo repetitivo no
qual evasão e dependência se alimentam mutuamente.
Uma história real por trás da ficção
O filme foi inspirado na história real da produtora de cinema Iafa Britz. Em entrevista à
Revista Claudia, ela relata que percebeu, em determinado momento, que não conseguiria
parar de beber sozinha.
Em suas palavras: “A vida não para para o seu alcoolismo. Os boletos continuam chegando.
Eu produzia filmes, vivia coisas maravilhosas, amava e era amada. Mas chegou uma hora
em que estava ficando difícil. Eu nunca consegui parar sozinha, sempre precisei de uma
rede de apoio.
”
Seu relato revela algo importante: o sofrimento pode estar presente mesmo quando a vida,
aparentemente, continua funcionando.Romper o silêncio é parte do processo de recuperação
Existe um medo profundo de mostrar aos outros a parte mais cansada, confusa ou
dependente de si mesma. Como se admitir o descontrole significasse falhar em todos os
papéis socialmente atribuídos às mulheres: boa mãe, boa profissional, boa companheira.
No entanto, o silêncio costuma aprofundar o sofrimento.
É justamente quando esse silêncio começa a ser rompido que o processo terapêutico se
torna possível. Pedir ajuda não significa perder o controle, mas escolher não enfrentar tudo
sozinha.
E, muitas vezes, é nesse momento que o processo de recuperação realmente começa.
O cuidado em saúde mental para mulheres
Na Clínica Quinta do Sol, reconhecemos a importância de olhar para as questões de gênero
dentro do cuidado em saúde mental. Sabemos que muitas experiências femininas carregam
especificidades que precisam ser compreendidas e acolhidas dentro do processo
terapêutico.
Por isso, oferecemos uma atividade terapêutica exclusiva para mulheres, conduzida por
psicóloga, pensada como um espaço seguro de escuta e acolhimento.
Nesse grupo, são trabalhadas questões como: sobrecarga emocional e doméstica; culpa
constante; relações marcadas por dependência emocional; violência e medo de julgamento;
dificuldades relacionadas ao uso de álcool e outras substâncias.
Trata-se de um espaço de identificação e partilha, onde cada mulher pode perceber que sua
dor não é isolada e que o processo de recuperação pode ser construído com apoio.
Porque ninguém precisa enfrentar esse caminho sozinha.
Autora: Flávia Araújo
Psicanalista e Psicóloga — CRP 08/35842
Instagram: @notasfaltando
Fontes
PEREIRA, Izete Soares da Silva Dantas. Produção científica no Brasil sobre álcool e
mulher: uma revisão bibliográfica. Serviço Social em Revista, v.14, n.2, p.236–251, 201

