Blog Quinta do Sol

Coronavírus: “Virei alcoólatra durante a pandemia”

o-alto-consumo-de-alcool-reduz-o-tamanho-do-cerebro

Antes da pandemia, o britânico Chris McLone estava prevendo que teria um bom ano. Perto dos 50 anos, ele se sentia saudável e em forma, curtindo a vida com uma carreira bem-sucedida em vendas.

Sempre sociável, Chris gostava de sair na noite e ir a jogos de futebol. O álcool era parte da sua vida social, mas ele nunca encarou isso como um problema.

Mas já nas primeiras semanas de quarentena, Chris — que vive em Teesside, no Reino Unido — deixou de ser uma pessoa que gostava de beber, e passou a ser alguém que precisa de uma bebida.

“Eu suponho que sempre fui uma pessoa que bebia socialmente — eu nunca ficava dentro dos limites recomendados, então, sim, eu gostava de beber, às vezes um pouco mais do que deveria, como muitas pessoas.”

“Eu estava bem antes da quarentena, eu estava me mantendo em forma, eu estava nadando cinco vezes por semana, eu estava indo bem no trabalho e eu estava com uma mentalidade boa, sendo sincero.”

Sua filha trabalha em um dos setores da economia que não pode parar durante a pandemia. Para proteger a saúde do pai, ela saiu de casa e foi morar em outra casa, deixando Chris morando sozinho — isolado, ansioso e com dúvidas sobre o futuro. Isso fez surgir uma depressão.

Essa sensação se prolongou e Chris começou a beber cada dia mais.

Chris diz que começou a sentir sintomas de abstinência no final. “Apesar de eu querer reduzir e parar naquele momento, eu não estava mais em controle. E essa foi a parte mais assustadora.”

“Eu nunca me senti assim na vida e tive que admitir isso para mim mesmo. Eu estava bebendo muito cedo na manhã para parar com os sintomas de abstinência.”

“Eu prometia a mim mesmo que não faria isso no dia seguinte. E é claro, a mesma coisa acontecia no dia seguinte. E foi aí que percebi que eu teria que dar um passo grande para procurar um tratamento de verdade.”

Com ajuda e apoio da família, Chris passou a frequentar o programa de reabilitação para dependentes de drogas e álcool na sua região.

Ele já está sóbrio há 70 dias e diz estar determinado em manter seus “demônios” adormecidos.

“Onde eu estava antes, era um lugar horrível e escuro, e a sobriedade é fantástica. Eu não consigo explicar o quão bem eu me sinto.”

‘Todo dia é sexta’

Um dos que ajudou Chris a retomar sua vida foi o médico Rob Hampton, especialista em vícios.

Ele diz que percebeu um aumento significativo no número de pessoas buscando ajuda. A história de Chris está longe de ser a única.

“Quando ouço as histórias, essas são pessoas que, há poucas semanas, estavam funcionando bem, mantendo seus empregos, vivendo vidas normais no cotidiano.”

“Em três semanas, eles se tornaram alcoólatras em necessidade de reabilitação e desintoxicação.”

“Se você olhar para o que a quarentena significa para a vida das pessoas. Alguém me fez uma colocação perfeita: ‘todo dia é sexta-feira agora’. Não temos mais motivos para sair da cama pela manhã.”

“Você acrescenta a isso a solidão que muitos sentem, a insegurança no emprego e todo tipo de estresse e problema em relação à incerteza com o futuro.”

Tudo isso é familiar para a British Liver Trust, entidade britânica que auxilia pessoas com problemas de alcoolismo.

A linha de telefone da entidade registrou um aumento de 500% nas ligações desde que começou a quarentena, indicando que existe um aumento grande no número de pessoas que estão tendo problemas com bebida.

Outra estatística preocupa: o número de mortes relacionadas com doenças de fígado provocadas pelo álcool cresceu 400% desde os anos 1970.

Esse tipo de doença mata 40 pessoas por dia no Reino Unido e já é a terceira maior causa de mortes prematuras no país (sendo a maior causa em pessoas de 35 a 49 anos).

A Escócia e o País de Gales adotam um preço mínimo para venda de bebidas alcoólicas. A Inglaterra diz que não tem planos para seguir essa iniciativa.

Pessoas como Chris estão tendo dificuldades para lidar com a quarentena. Atividades como brincar com o cachorro ou tocar guitarra o ajudaram a se manter ocupado e sóbrio.

“Eu acho que o melhor conselho que posso dar é: seja honesto. Seja honesto consigo mesmo, seja honesto com os outros, conte para todos o que você está passando. Não é só mais um estigma, como era no passado. É uma doença.”

Fonte: BBC

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *