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Alcoolismo deve ser tratado de maneira crítica, mesmo na ficção

Especialistas alertam que novela ameniza o tratamento e pode iludir doentes e familiares. “O assunto deveria ser tratado de forma mais aberta!”

Seguidamente, filmes, novelas e livros trazem personagens enfrentando o problema do alcoolismo. Se, por um lado, isso é extremamente positivo para chamar a atenção da sociedade para o problema, por outro, pode ser preocupante se o assunto for tratado de maneira superficial. Na atual novela das 21h da rede Globo, “Em Família”, por exemplo, o personagem Felipe (interpretado pelo ator Thiago Mendonça) convive com o alcoolismo desde a adolescência e agora, na idade adulta, o problema tornou-se ainda mais grave ao afetar sua atuação profissional.

O psicólogo Dionísio Banaszewiski, que trabalha há mais de 20 anos com orientação, tratamento e combate ao uso de drogas e álcool, alerta para os pontos positivos e negativos da abordagem da novela. Segundo ele, que atua em parceria com a Clínica Quinta do Sol, em Curitiba, o ponto mais positivo é a coragem de tratar do assunto. “O fato de o álcool ser uma droga socialmente aceita torna o enfrentamento da questão muito mais difícil. Quando a novela expõe o tema, a sociedade passa a ver com olhos mais preocupados e isso é muito bom”, diz.

O médico José Carlos Vasconcelos, diretor da Clínica Quinta do Sol, levanta outro ponto interessante da abordagem na novela: levantar a questão do problema do alcoolismo entre os médicos. “É um problema crescente entre profissionais da saúde. Nos últimos anos temos percebido um aumento sensível no número de médicos que acabam também caindo no vício do álcool”, afirma o médico.

Por outro lado, a evolução do personagem na trama foi feita com alguns equívocos em relação ao enfrentamento do alcoolismo. Por exemplo: desde o início da novela, Felipe já tinha problemas com o álcool, quando era adolescente, mas a família não parecia ver ou se preocupar com isso. Agora, quando ele já é adulto e enfrenta inúmeros problemas por causa do alcoolismo, o assunto parece ser tratado de maneira simplista. “Não sabemos quanto tempo ele ficou internado, a novela dá a impressão de que foi um período curto. Depois da internação, ele apareceu várias vezes abraçado a uma garrafa de vodca que escondia na cama – uma relação doentia que precisa ser enfrentada com rigor. E agora ele tem convivido com outros personagens que o provocam o tempo todo para beber – ora, não seria interessante que tentassem ao menos poupá-lo?”, questiona o psicólogo Dionísio.

Igualmente questionável, segundo os dois especialistas, é o fato de as bebidas alcoólicas estarem presentes em praticamente todas as situações sociais da obra de ficção. Há outros personagens alcoólicos – como Viriato (vivido pelo ator Antonio Petrin), pai da polêmica Shirley. Aliás, ela mesma está sempre tomando champanhe. O advogado Nando (Leonardo Medeiros) também tem bebido além da conta. A médica Silvia (Bianca Rinaldi), a fotógrafa Marina (Tainá Muller) e a assistente Vanessa (Maria Eduarda de Carvalho) já vivenciaram escândalos em cenas em que ficam bêbadas na novela. Tudo isso, segundo o psicólogo Dionísio, reforça a ideia de a bebida ser socialmente aceitável e de que os problemas são amenos – e não são. “O álcool precisa ser visto como algo perigoso, comparável a outras drogas e que também provoca dependência. As obras de ficção poderiam fazer um bom papel social ao abordar o tema de forma mais crítica”, argumenta Vasconcelos.

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