A dependência química e outras formas de comportamento compulsivo (compras, jogo, internet, etc…) representa um dos principais problemas de saúde mental e física da humanidade.

Como diagnosticamos o quadro?

A passagem de usuário recreacional para o dependente costuma ser lenta e quase imperceptível para o paciente e seus familiares. Alguns critérios ajudam na formação do diagnóstico. São eles:

1. PERDA DO CONTROLE SOBRE O USO: o paciente mostra-se compulsivo no uso da substância. A vontade de usar (impulso) vence a consciência (contato com a realidade, pensamento lúcido).

2. REPETIÇÃO DO PADRÃO DE USO (COMPULSIVO) APESAR DOS PREJUÍZOS: o paciente fica em abstinência por algum período (geralmente dias ou poucas semanas, raramente alguns meses) e retorna ao consumo, agravando o quadro.

3. GRANDE IMPORTÂNCIA ATRIBUÍDA A SUBSTÂNCIA: alguns pacientes desenvolvem um apego exagerado ao álcool, THC, cocaína e outras substâncias e defendem seus supostos benefícios, com argumentos pseudo-científicos.

4. DIFICULDADE INTENSA DE RECONHECER E ADMITIR O PROBLEMA: exagero com os mecanismos de defesa do Ego. Estes visam proteger o Ego (eu) do indivíduo em relação a sua realidade de ter desenvolvido uma dependência química. Os mecanismos mais usados são:

a. Negação;
b. Minimização;
c. Racionalização;
d. Projeção;
e. Simplificação.

5. AUMENTO DA TOLERÂNCIA EM RELAÇÃO ÀS SUBSTÂNCIAS UTILIZADAS: pela adaptação do organismo à presença da substância através das células do fígado e do Sistema Nervoso Central, a pessoa necessita de quantidades maiores dela para obtenção do mesmo efeito. Isto ocorre de modo quase imperceptível para o paciente.

6. ESTREITAMENTO DO REPERTÓRIO: a substância que era consumida em ocasiões comemorativas, passa a ser consumida com mais frequência, chegando ao consumo diário, até várias vezes no mesmo dia.

7. DESCONFORTO NA AUSÊNCIA DA SUBSTÂNCIA: a síndrome de abstinência vai desde leve irritabilidade, ansiedade, insônia até sintomas maiores como tremores de extremidades, sudorese, delírios, alucinações, apagamentos (falhas de memória), crise convulsiva (tipo epiléptica). São específicas para cada substância.

Tratamento

a. CONSCIENTIZAÇÃO: ajudar ao paciente a aceitar sua realidade de dependência química ou não químcia é decisivo para a recuperação. Suas defesas – processo inconsciente que visa evitar a dor – fazem com que ele não reconheça seu estado real, liberando-o para a continuidade do uso.

b. DESINTOXICAÇÃO: é um processo natural do organismo. Uma vez cessado o consumo, o indivíduo passa a se alimentar melhor, dormir melhor. Com ajuda de medicamentos específicos e polivitamínicos, há uma melhora significativa do quadro. Muitas vezes, após a desintoxicação, é possível ao paciente admitir seu real estado. É comum, nesta situação, o paciente relatar detalhadamente seu consumo de substâncias sua compulsividade e os malabarismos para esconder dos familiares. Ele pode reconhecer as defesas que usava e desenvolver a aceitação da sua dependência.

c. DESENVOLVIMENTO HUMANO: o trabalho da Psicoterapia Dinâmica associada à cognitivo comportamental é decisivo para recuperação. O indivíduo que se mostrava confuso na sua vida, pode começar um caminho de encontrar-se na sua realidade, adquirindo maior conhecimento de si mesmo.

d. VÍNCULO: o trabalho precisa favorecer o desenvolvimento de um bom vínculo paciente-terapeuta, que implica em confiança, possibilidade de tratar as questões conflitivas de sua personalidade, visando seu desenvolvimento. outros vínculos positivos são retomados ou desenvolvidos.

Qualidade de Vida Junto com a Abstinência

A experiência mostra que não basta o paciente abster-se das drogas. É necessário que ele se desenvolva emocionalmente. Um ego frágil, pouco tolerante às adversidades da vida, é fortemente favorecedor das recaídas.
As dificuldades para estabelecer bons vínculos nas relações familiares e amizades tornam o indivíduo isolado, sem prazer nas atividades sociais e profissionais, favorecendo aspectos primitivos (inveja, ciúmes, rivalidade, entre outras). Muitas vezes, transtornos como os de ansiedade, bipolaridade ou depressão evidenciam-se com a abstinência.

O tratamento psicoterápico (e medicamentoso, se necessário) é fundamental para que o paciente melhore gradativamente sua relação com a vida. A prepotência do “já sei” ou “já estou bom” precisa dar lugar ao interesse em “vir a aprender com suas alegrias e tristezas”.

O orgulho doentio precisa ceder à saúde mental, em busca de uma vida com qualidade através de prazeres que não destruam sua estrutura física e mental.

José Carlos Vasconcelos
Diretor clínico da Clínica Quinta do Sol

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