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Alcoolismo: pandemia faz busca por ajuda aumentar em Belo Horizonte

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Ocupando duas salas no sétimo andar de um edifício localizado na rua da Bahia, na área central de BH, o escritório do Alcoólicos Anônimos (AA) tinha sua única linha telefônica congestionada na última segunda-feira, feriado da Independência. Na data, foram necessárias três tentativas até que a reportagem de O TEMPO fosse, finalmente, atendida. Um fato ilustrativo do dilema vivido pela organização, que completou 73 anos de atuação no Brasil no início de setembro e que teve sua dinâmica de ação profundamente afetada pela pandemia ao mesmo tempo em que a demanda por ajuda se ampliou.

Ocorre que, com horário reduzido – hoje, o atendimento é feito das 13h às 17h, enquanto, anteriormente, o escritório funcionava entre 8h30 e 19h30, com intervalo para almoço – e com incremento de protocolos – incluindo a necessidade de agendamento de visitas com o objetivo de evitar aglomeração –, a busca por ajuda parece ter ficado mais difícil desde março, quando ações de enfrentamento da Covid-19 foram gradativamente sendo implantadas em todo o país. Paradoxalmente, mais pessoas passaram a procurar o AA – seja porque a convivência doméstica mais frequente levou a uma acentuação da percepção sobre o alcoolismo ou mesmo por conta de um agravamento de quadros de dependência química. Diante desse cenário, o grupo precisou se reinventar e investir em assistência remota, fortalecendo o vínculo entre os integrantes por meio de ferramentas online, como o WhatsApp.

 “Hoje, alguns grupos de apoio estão retomando suas atividades, mas com limitações. Nesse tempo, apostamos, principalmente, em reuniões virtuais, que têm ajudado muitas pessoas que estão em isolamento social, principalmente as mais velhas”, explica Paulo, 67, que é membro do AA há 22 anos. Ele explica que a instituição não trabalha com estatísticas, mas garante que a busca por ajuda vem aumentando consideravelmente desde segundo trimestre deste ano. “Temos acolhido diversos pedidos de ajuda de familiares e de alcoólicos. Aumentou muito o número de demandas porque a dependência ficou mais evidente: ficando mais em casa, as pessoas cujos entes estão com vício em álcool se deram conta desse problema”, diz, lembrando que há um braço da entidade dedicado ao atendimento de familiares de pessoas alcoólicas, o Al-Anon.

Recentemente, o grupo do AA de que Cláudia, 52, participa – um dos 150 sediados em BH – voltou a realizar encontros presenciais, mas com menor frequência. Antes da pandemia, eram três por semana. Agora, apenas um a cada 15 dias. “Temos também as reuniões online, mas o que ajuda mesmo é chamar, no WhatsApp, colegas e amigos que também estão enfrentando o vício. Acho que, nesse ínterim, nos tornamos mais próximos”, explica. “Se não tivesse entrado (na organização) e encontrado apoio (de outros membros), tenho certeza de que estaria bebendo muito mais nesse período, pois estou ficando mais em casa e quando se tem o vício da bebida e se tem mais tempo para se dedicar a ele, então você vai beber mais. Comigo não seria diferente”, reconhece ela.

Mais tempo em casa e níveis mais elevados de estresse podem turbinar consumo de álcool durante pandemia

O desabafo de Cláudia é permeado por uma análise que é compartilhada por estudiosos do alcoolismo, como o médico psiquiatra Guilherme Álvares Cabral: “Muitos dependentes têm um padrão de uso que, normalmente, se adapta ao trabalho – em geral, esta é a última das condições da vida a ser afetada pelo uso do álcool”, informa, detalhando ser comum que o alcoolista se preserve no ambiente profissional: ou não bebe durante a semana ou bebe menos, deixando para ingerir bebidas etílicas mais intensamente no fim de semana.

Mas, com a pandemia, “muitos deixaram de sair de casa para trabalhar – seja por terem ficado sem trabalho ou por poderem trabalhar remotamente. Sem terem de se expor alcoolizados em ambiente de trabalho, diante de chefes, colegas, sócios ou funcionários, puderam beber numa intensidade e frequência maior. Com o passar do tempo, isso favoreceu que o alcoolismo, em alguns casos, fosse do moderado a uma classificação mais grave”, estabelece.

A psicóloga e pesquisadora Renata Borja acrescenta que o aumento do nível de ansiedade e de quadros depressivos, associado às mudanças abruptas de rotina, mesmo que temporárias, pode impulsionar hábitos problemáticos, incluindo o consumo descontrolado de bebidas etílicas.

De fato, a venda destes itens aumentou 38% nas distribuidoras, 27% nas lojas de conveniência e 26% nos serviços de entrega em domicílio, de acordo com a Subsecretaria de Políticas Sobre Drogas da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social (Sedese). “Frustração, tristeza, angústia, insegurança e medo são emoções que sinalizam para o cérebro a necessidade de uma ativação positiva, ou seja, algo que dê prazer. O problema é utilizar estratégias mal-adaptativas do sistema de recompensa, como a bebida, como uma tentativa de ajustar as emoções”, examina Renata.

Histórias que se cruzam: hereditariedade, consumo precoce e resistência em aceitar o diagnóstico

Notadamente, a relação de Paulo e de Cláudia com a bebida possui diversos pontos de confluência: os dois começaram a beber ainda na adolescência, quando tinham por volta de 16 anos, e vinham de famílias com histórico de dependência alcoólica.

“Eu perdi um irmão para o vício e estava seguindo o mesmo caminho sem perceber. Comecei porque era muito tímido. Então, embora não gostasse do sabor, eu recorria à bebida para me soltar, algo que a própria sociedade estimula. Gradativamente, fui aumentando a dosagem. Até que chegou o dia em que um copo podia ser suficiente, mas dez copos já não satisfaziam”, comenta ele. A história dela é parecida: “Mesmo antes de descobrir que estava indo para esse lugar eu já sofria com a bebida, pois tinha um pai viciado, que eu precisava ajudar e que, hipertenso, acabou se descuidando e falecendo por causa do álcool”.

Antes do AA, os dois buscaram tratamentos, mas, sem aceitar que estavam doentes, os resultados não foram efetivos. “Cheguei a me internar em uma ‘fazendinha’ (de reabilitação) e fiquei um tempo sem beber. Era como se tivesse provado que não estava doente, que poderia parar quando quisesse. E, por isso, quando saí, voltei ao vício”, relata Paulo. Igualmente, Cláudia chegou a passar 40 dias sem ingerir nada que fosse alcoólico. Tão logo, voltava ao uso abusivo. “Procurei uma psicóloga, porque, sempre que bebia, ficava agressiva comigo mesma, me debatia, me machucava. Fui atrás de uma doença psicológica (que justificasse esse comportamento) por não admitir que o problema era a bebida”, comenta.

Os relatos deles são exemplos precisos do que diz a ciência sobre o tema. “Trata-se de uma doença que é resultado da influência de fatores e vetores que se cruzam para favorecer a instalação da dependência química. Um desses fatores é a vulnerabilidade genética: estudos indicam que filhos de dependentes têm 25% mais chance de desenvolver alcoolismo que a população em geral”, informa Guilherme Álvares Cabral.

“Outro fator é o apelo cultural, que estimula o uso da substância, e a associação feita ao longo da vida entre o álcool e sensações positivas, como a de relaxamento. A exposição regular através dessa procura, inicialmente motivada por curiosidade e depois pelo estímulo do grupo, pode fazer com que cerca de 10% desse grupo que começou a beber no final ou no meio da adolescência desenvolva, com o passar dos anos, a dependência”, expõe o psiquiatra, completando que aqueles que começaram a beber antes dos 19 anos têm mais probabilidade de desenvolver o vício – “dado que o sistema nervoso e o sistema de recompensa do cérebro ainda não está totalmente maduros”.

Dependência tem desdobramentos em relação à saúde física e física e mental

Guilherme Álvares Cabral lembra que o bem-estar dessas pessoas fica comprometimento tanto pelas consequências sociais, conjugais e profissionais que o alcoolismo acarreta quanto por implicações na saúde física. “Podem haver problemas como cardiopatia alcoólica, problemas que afetam a memória e o raciocínio”, explica, citando que problemas mentais, como depressão e ansiedade, podem ser manifestados como consequência do uso da substância – e não causa.

Sofrimento mental, aliás, era algo que vinha se agravando no caso de Cláudia. “No dia seguinte, sempre me sentia muito triste. Não conseguia fazer nada, passava o dia na cama. Sentia vergonha de meus filhos, de meu marido, de meus familiares. Comecei a pensar em tirar minha própria vida”, revela. De acordo com informe divulgado pela Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) na campanha Setembro Amarelo de prevenção ao autoextermínio de 2019, de 5% a 10% das pessoas dependentes de álcool terminam suas vidas pelo suicídio.

Aceitar que a doença existe é essencial para o seu tratamento

A resistência de Paulo e Cláudia a reconhecer que estão doentes é atributo comum quando se fala da dependência em álcool: “O alcoolista vive uma percepção distorcida da realidade, uma percepção ‘delirante’, em que ele vai acreditar que pode parar (de beber) a hora que quiser e em que vai sustentar que faz uso do álcool em consequência de uma situação social ou emocional. Mas, na verdade, o ato de beber é determinado pela existência da doença”, pontua Guilherme Álvares Cabral, lembrando que, também por conta disso, muitos acabam se afastando de amigos e familiares que não compartilham dessa mesma visão. “Essa é a razão pela qual é tão difícil abordar um alcoolista para tratamento: o dependente não acredita que haja um problema”, explica.

O médico avalia que o AA acerta ao promover, por meio do compartilhamento de experiências, o reconhecimento de que há um problema de saúde a ser tratado. “Em um grupo, ao ter contato com pessoas que apresentam o mesmo problema que você, aquela realidade que não era percebida em sua vida fica mais evidente. Isso acaba ajudando no processo de aceitação, que é fundamental. Além disso, há o estímulo e a motivação do grupo, que ajudam muito nesse processo”, examina.

Foi ouvindo histórias parecidas com a sua que Cláudia reconheceu, pela primeira vez, o alcoolismo como uma doença. “Participei de um encontro de grupo, escutei os relatos sobre o sofrimento e sobre como aquelas pessoas pararam de beber. Eu me identificava com todas elas. Em tudo que falavam, tinha algo do que estava acontecendo comigo”, comenta, emocionada.

De início, Paulo resistiu a participar de uma reunião do AA. Quando finalmente entrou em uma sala, há 22 anos, se surpreendeu. “Eram pessoas bem-vestidas, com fisionomia boa, felizes. Não pareciam doentes. E havia uma boa recepção, sem julgamentos”, comenta, observando que a entidade não faz diagnósticos: “Você vai responder a um questionário, que é seu, não precisa mostrar para ninguém. Lá vai ter algumas questões, como se já experimentou bebida pela manhã, se alguém já te criticou pela maneira de beber, se já faltou ao trabalho para beber, se (a bebida) está trazendo problemas para o seu lar. Se responder que sim em quatro delas, provavelmente você é dependente químico”.

Fácil acesso e cultura de estímulo ao consumo de álcool dificultam tratamento

Ao iniciar o tratamento, eles passaram a se sentir assombrados pelo constante estímulo ao consumo de álcool – e, por isso, de início, precisaram reconstruir paradigmas. “Aos pouquinhos, frequentando as reuniões, fui me fortalecendo. A dependência não tem cura. Se eu me descuidar, eu posso voltar à estaca zero”, comenta Cláudia, citando que, no início, passou a evitar bares e outros espaços com grande oferta de bebida, só voltando a esses lugares quando se sentiu segura.

De fato, aqueles que reconhecem que há problemas em relação ao uso de bebidas alcoólicas e estão dispostos a se tratar costumam relatar certa dificuldade na lida com lugares e situações em que o álcool é ofertado, aponta o psicólogo especialista em dependência química e saúde mental Luciano Pinheiro. Para ele, o fato de essa droga ser fartamente oferecida é um dificultador. Por isso, o alcoolista deve “ter em mente que a sociedade não mudará por causa dele. É necessária uma autorresponsabilização do sujeito, reconhecendo inicialmente as situações de risco e evita-las, desenvolvendo em paralelo, estratégias de enfrentamento para lidar com essas situações”.

O tratamento, explica ele, pode exigir uma desintoxicação em ambiente hospitalar em razão dos sintomas da síndrome de abstinência, que é grave. “Ao se desintoxicar, a pessoa poderá fazer acompanhamento psiquiátrico caso necessário e psicoterapia. Por diversos motivos pessoas bebem. Se ela não consegue identificar a causa disso, provavelmente voltará a beber. Os grupos de mútua ajuda como o AA também são uma ótima opção, pois oferece uma nova rede de amizades além de ter o programa de 12 passos que ajuda muito na recuperação”, comenta Figueiredo. Ele lembra que serviços públicos, como os CERSAM AD, oferecem tratamento ao dependente químico. Unidades Básicas de Saúde também são opção.

Serviço:

Informações sobre a assistência gratuita e voluntária oferecida pelo AA podem ser obtidas pelo telefone (31) 3224-7744 ou pelo site aa.org.br. O escritório da organização em Belo Horizonte fica na rua da Bahia, número 504, ocupando as salas 701 e 702. Por conta da pandemia, o horário de funcionamento está mais restrito, apenas de uma da tarde até cinco da tarde e visitas precisam ser previamente agendadas.

O tamanho do problema

Estima-se que a prevalência de alcoolismo na população mundial ocidental seja de 10% a 15% – na região metropolitana de BH, portanto, até 890 mil podem ser dependentes da substância. “Não é algo evidente aos olhos de um leigo porque, em primeiro, o álcool está disponível em qualquer lugar e é uma bebida estimulada socialmente; além disso, trata-se de uma droga lícita”, explica Guilherme Álvares Cabral. O psiquiatra lembra que a doença não está relacionada a uma quantidade certa mínima de consumo. “Não existe este requisito de beber muito ou com certa frequência para o diagnóstico da doença. O mais importante é perceber a existência de problemas consequentes dessa substância”, detalha.

Lembrando que, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), não existe volume seguro de álcool a ser consumido, Luciano Pinheiro cita que a substância é tóxica para o organismo humano – e pode provocar doenças mentais, diversos cânceres, problemas hepático, como a cirrose, alterações cardiovasculares, com risco de infarto e acidente vascular cerebral e a diminuição de imunidade.

Pinheiro reforça que o termo ‘beber socialmente’ não tem uma definição científica e pode variar de pessoa para pessoa e também de acordo com a cultura, costumes específicos e influência do grupo de pessoas no qual convive. “Assim, o que vai diferenciar o ‘beber socialmente’ do alcoolismo ou dependência química é o grau de comprometimento que essa pessoa tem com a substância, ou seja, se está tendo perdas e prejuízos nas diversas áreas da vida, como financeiro, familiar, emocional, físico, intelectual e laboral, não necessariamente em todas essas áreas”.

O psicólogo acrescenta que outros fatores ajudam a diferenciar o alcoólico do “bebedor social”, como a tolerância, a síndrome de abstinência, o estreitamento de repertório, o forte desejo de beber e a persistência em se embriagar apesar das diversas consequências negativas.

Antes da dependência, álcool já é origem de diversos problemas

“Antes da dependência em si, já há outros problemas relacionados ao uso, o que se chama de abuso do álcool – que não é beber muito, mas ter problemas por razão do consumo”, discorre Guilherme Cabral.

Segundo o Ministério da Saúde, 17,9% das pessoas que bebem, fazem uso abusivo da substância. Um quadro que leva os dois estudiosos a considerar tímida a discussão sobre o tema enquanto problema de saúde pública.

“Fala-se muito de outras substâncias ilícitas como vilãs da sociedade e provocadoras do aumento da violência, que algo precisa ser feito na cracolândia, acabar com tráfico e várias outras críticas. Mas nos esquecemos que o álcool causa muito mais mortes do que todas outras substâncias ilícitas juntas, além de estar envolvido indiretamente em vários outros crimes, como violência doméstica, acidentes de trânsito, crimes passionais e gasto do Sistema Único de Saúde (SUS) com tratamento”, aponta Luciano Pinheiro.

Os questionamentos propostos pelo psicólogo são referendados por diversas pesquisas. O relatório do Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (Cisa) de 2019, por exemplo, indica que 18% das agressões interpessoais no Brasil estão relacionadas ao consumo de álcool. Já um estudo da Unifesp aponta que pessoas alcoolizadas tem o dobro de chances de sofrer agressões em relação a indivíduos sóbrios. Além disso, em 2017, foram mais de 12 mil internações devido a agressões decorrentes de abuso de álcool no Brasil. Mais: embora o Centro de Pesquisa e Economia do Seguro (CPES) estime que a Lei Seca possa ter evitado, entre 2008 e 2016, a morte de quase 41 mil pessoas, a embriaguez ao volante continua sendo umas das principais causas de acidentes de trânsito no país. A bebida também pode levar à gravidez não planejada e à proliferação de doenças venéreas. Um levantamento feito pelo Departamento de DST/Aids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde indica que 72,7% dos brasileiros entre 15 e 64 anos acreditam que o uso de álcool ou drogas pode fazer com que as pessoas tenham relações sexuais sem camisinha.

“Temos um bom exemplo de estratégia que gera resultado, como foi feito com o tabaco. Foram criadas leis antifumo, restrições a tabagistas, proibição de propaganda, aumento de imposto e oferta ampla de tratamento para aqueles que querem parar, fornecida pelo SUS. Porque não se faz isso com as bebidas alcóolicas?”, propõe.

Fonte: https://www.otempo.com.br/interessa/alcoolismo-pandemia-faz-busca-por-ajuda-aumentar-em-belo-horizonte-1.2383134

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